Categoria: Cultura

  • ABC: O Dia em Que o Pop Britânico Vestiu Laço Preto e Pediu um Martini

    ABC: O Dia em Que o Pop Britânico Vestiu Laço Preto e Pediu um Martini

    Imagine um mundo onde sintetizadores conversam com violinos, onde letras sobre traição soam como poemas de Oscar Wilde, e onde dançar é um ato de sobrevivência emocional. Em pleno auge do pós-punk áspero e da new wave minimalista, o ABC surgiu como um paradoxo glamouroso: uma banda que transformou o desespero amoroso em espetáculo de luxo. Com ternos impecáveis, orquestrações cinematográficas e uma voz que sussurrava verdades incômodas, eles não apenas fizeram hits — redefiniram o que o pop podia ser. Bem-vindo ao Lexicon of Love, o manual secreto do coração moderno.

    História: Do Fanzine ao Palco Iluminado

    O ABC nasceu em Sheffield, cidade inglesa marcada por fumaça de siderúrgicas e uma cena musical surpreendentemente sensível. Enquanto fábricas fechavam sob o governo Thatcher, jovens artistas buscavam refúgio na música eletrônica, no teatro e na moda. Foi nesse caldeirão de contradições que tudo começou.

    Em 1979, Mark White e Stephen Singleton formaram o Vice Versa, uma banda experimental de synth-pop com letras conceituais e sons minimalistas. Mas algo faltava: carisma, drama, humanidade.

    Em 1980, durante uma entrevista para o fanzine Modern Drugs, o jornalista Martin Fry — então estudante de cinema e fã de poesia francesa — conheceu o grupo. Fry usava um colete dourado feito à mão, falava com entusiasmo sobre Scott Walker e Roxy Music, e tinha uma voz que misturava vulnerabilidade e ironia. White ficou impressionado. “Por que você não canta com a gente?”, perguntou.

    Assim, o Vice Versa foi dissolvido, e o ABC nasceu — as iniciais não tinham significado fixo (às vezes “After Blue Cheer”, outras “Absolutely Brilliant Chaps”), mas simbolizavam um novo começo: limpo, ambicioso, estiloso.

    Com a entrada de David Palmer na bateria e a permanência de White nos teclados/guitarra e Singleton no saxofone, a formação clássica estava pronta. Eles não queriam só fazer música — queriam criar um mundo. Um mundo onde o pop fosse tão sofisticado quanto um romance de Graham Greene, tão visual quanto um filme de Godard, e tão dançante quanto uma noite no Blitz Club.

    Obra: A Arquitetura do Luxo Sonoro

    O grande salto veio com o encontro entre o ABC e Trevor Horn, produtor visionário recém-saído do sucesso global de “Video Killed the Radio Star”. Horn via no ABC a chance de provar que a eletrônica podia ser quente, humana, até orquestral.

    Assim nasceu The Lexicon of Love (1982) — um álbum conceitual sobre o ciclo do amor: desejo, ilusão, traição, desespero. Cada faixa era um ato de uma peça teatral invisível.

    • “Tears Are Not Enough”: o primeiro single, com seu baixo pulsante e metais brilhantes, já anunciava a nova linguagem: pop como performance emocional.
    • “Poison Arrow”: uma sátira venenosa ao jogo de sedução, com arranjos que lembravam James Bond meets Chic.
    • “The Look of Love”: o ápice. Um riff de piano hipnótico, cordas dramáticas e um refrão que ecoa até hoje. Tornou-se um hino global — e o maior sucesso da banda.
    • “All of My Heart”: fechamento perfeito, quase uma canção de ninar para corações partidos.

    O álbum vendeu mais de 1 milhão de cópias no Reino Unido, chegou ao nº 1 e foi aclamado pela crítica como “o Sgt. Pepper do pop sintético”.

    Mas o ABC recusou-se a repetir a fórmula. Em 1983, lançaram Beauty Stab — uma reviravolta radical. Sem orquestra, sem Trevor Horn, com guitarras distorcidas, baterias agressivas e letras mais cruas. Era uma resposta ao rótulo de “banda de lounge”. Infelizmente, o público não acompanhou: vendas caíram, críticos confusos, fãs desorientados. Hoje, porém, Beauty Stab é revisitado como um ato de coragem artística — um disco que antecipou o som alternativo dos anos 90.

    Nos anos seguintes, o ABC abraçou plenamente a era MTV. How to Be a … Zillionaire! (1985) trouxe batidas funk, sintetizadores brilhantes e videoclipes cheios de exagero visual — inspirados em Scarface, Blade Runner e cultura pop americana. Hits como “Be Near Me” e “Vanity Kills” consolidaram sua presença nos EUA.

    Ao longo da década, sua sonoridade foi moldada por influências diversas:

    • Roxy Music (drama e estilo),
    • Chic (groove e elegância rítmica),
    • Burt Bacharach (harmonias complexas),
    • Kraftwerk (precisão eletrônica),
    • e até cinema noir (temas de traição, solidão urbana).

    Dinâmica: Entre Amizade, Pressão e Reinvenção

    Por trás do glamour, o ABC enfrentou tensões intensas. Fry, cada vez mais o rosto da banda, sentia o peso da expectativa. White, perfeccionista e introspectivo, lutava contra a indústria musical. Singleton, mais reservado, começou a se afastar.

    Após a turnê de Beauty Stab, Singleton e Palmer deixaram o grupo. O ABC tornou-se essencialmente uma parceria criativa entre Fry e White — mas mesmo essa aliança rachou sob a pressão do sucesso e da identidade artística.

    Em 1991, após o álbum Abracadabra, Mark White abandonou a música para viver como eremita nas montanhas da Escócia, buscando silêncio e espiritualidade. Fry, sozinho, manteve o nome ABC vivo, transformando-o em um projeto solo com alma coletiva.

    Essa dualidade — entre colaboração e solidão, entre espetáculo e introspecção — está presente em toda a obra da banda. Cada álbum é um retrato de quem eles eram naquele momento: apaixonados, confusos, ambiciosos, feridos.

    Geografia: Do Norte Industrial ao Mundo

    Embora profundamente britânico, o ABC encontrou ressonância global. No Reino Unido, eram herdeiros diretos da tradição de pop inteligente de David Bowie e Bryan Ferry. Em Sheffield, são celebrados como ícones culturais — parte do “triunvirato new wave” da cidade, ao lado de The Human League e Heaven 17.

    Nos Estados Unidos, tiveram sucesso moderado, mas duradouro: “The Look of Love” e “Be Near Me” entraram no Top 20 da Billboard Hot 100. Seu apelo era forte em clubes urbanos e estações de rádio FM que valorizavam produção sofisticada.

    No Brasil, o ABC nunca foi mainstream, mas conquistou um público fiel: ouvido em programas noturnos da Rádio Fluminense, em mixtapes de colecionadores e em festas alternativas dos anos 80/90. Sua estética “clean but dramatic” combinava com a cena pós-new wave brasileira — pense em Metrô, RPM, ou até certas fases do Kid Abelha.

    Na Europa continental, especialmente na França e Alemanha, foram adorados por sua mistura de intelectualismo e sensualidade. No Japão, influenciaram a estética visual kei e bandas de city pop que buscavam fusão entre ocidente e oriente.

    Sua longevidade cultural vem justamente dessa capacidade de ser ao mesmo tempo local e universal — enraizado em Sheffield, mas falando a língua do desejo humano.

    Discografia: A Jornada em Álbuns

    1. The Lexicon of Love (1982)
      Produzido por Trevor Horn. Estilo: sophisti-pop, new wave orquestral.
      Destaques: “The Look of Love”, “Poison Arrow”, “All of My Heart”.
      Legado: considerado um dos maiores álbuns dos anos 80.
    2. Beauty Stab (1983)
      Autoproduzido, sem orquestra. Estilo: rock alternativo, pós-punk agressivo.
      Destaques: “That Was Then but This Is Now”, “S.O.S.”.
      Curiosidade: gravado em apenas 6 semanas, como reação ao sucesso “fácil” do primeiro álbum.
    3. How to Be a … Zillionaire! (1985)
      Produzido por Gary Langan e ABC. Estilo: pop maximalista, funk eletrônico, influência MTV.
      Destaques: “Be Near Me”, “Vanity Kills”, “(How to Be A) Millionaire”.
    4. Alphabet City (1987)
      Mais voltado ao R&B e soul urbano. Estilo: smooth pop, batidas dançantes.
      Destaques: “When Smokey Sings” (homenagem a Smokey Robinson), “King Without a Crown”.
    5. Up (1989)
      Experimentação com house music e batidas eletrônicas. Estilo: dance-pop, acid house suave.
      Destaques: “One Better World”, “The Night You Murdered Love”.
    6. Abracadabra (1991)
      Último álbum com Mark White. Estilo: retorno às raízes, mas com texturas ambientais.
    7. Skyscraping (1997)
      Primeiro álbum solo de Fry como ABC. Homenagem a Brian Wilson e Phil Spector. Estilo: wall of sound moderno.
    8. Traffic (2008), The Lexicon of Love II (2016), The Lexicon of Love III (2023)
      Continuação do legado, com orquestra ao vivo e produção impecável. Fry mantém viva a visão original.

    Em 2016 ABC lançou The Lexicon of Love II — uma continuação artística e emocional do clássico de 1982, concebida como uma espécie de “segundo ato” daquela jornada romântica, agora vista com a sabedoria (e cicatrizes) da maturidade.

    Produzido novamente com orquestrações luxuosas — dessa vez pela Southbank Sinfonia, sob regência de Anne Dudley (ex-Art of Noise, que já havia trabalhado no álbum original) — o disco traz Martin Fry revisitando temas de amor, perda, esperança e nostalgia, mas com uma voz mais serena e arranjos ainda mais cinematográficos.

    Alguns destaques do álbum:

    • “Viva Love”: um hino dançante e otimista, quase uma resposta à melancolia de “All of My Heart”.
    • “The Flames of Desire”: drama puro, com cordas intensas e letra teatral.
    • “Ten Below Zero”: uma balada gelada e elegante sobre distanciamento emocional.

    Embora não tenha tido o impacto comercial do original, Lexicon of Love II foi aclamado por fãs e críticos como um dos lançamentos mais corajosos e coesos da carreira solo de Fry — uma prova de que o universo do ABC ainda respira, evolui e encanta.

    Hoje: O Eco do Lexicon

    O ABC nunca foi apenas uma banda — foi um estado de espírito. Hoje, sua influência é onipresente:

    • The Weeknd cita “The Look of Love” como referência para o drama sensual de After Hours.
    • Roisin Murphy herda a mistura de voz teatral e produção ousada.
    • Bandas como Glass Animals, Måneskin e até Dua Lipa (em sua fase disco-pop) dialogam com a ideia de pop como teatro sensorial.

    Seu álbum de estreia é estudado em cursos de produção musical como exemplo de como unir tecnologia e emoção. Em 2022, o Royal Northern College of Music recriou The Lexicon of Love ao vivo com orquestra — prova de seu status clássico.

    Onde ouvir?
    Todos os álbuns estão disponíveis no Spotify, Apple Music e YouTube.

    Comece por:

    • Para novatos: “The Look of Love”, “Be Near Me”, “When Smokey Sings”.
    • Para fãs profundos: “S.O.S.” (Beauty Stab), “King Without a Crown” (Alphabet City), “Viva Love” (Lexicon II).

    E se você sentir aquela mistura familiar de melancolia e glamour enquanto escuta… saiba que Martin Fry ainda está lá, de smoking, num palco qualquer, cantando para os eternos românticos perdidos na era digital.

    “Pop isn’t shallow if you pour your soul into it.”
    — Martin Fry, em entrevista à Melody Maker, 1982

    Fontes que inspiraram este post

    • Entrevistas de Martin Fry em Melody Maker (1982) e The Guardian (2016)
    • Documentário Synth Britannia (BBC, 2009)
    • Rip It Up and Start Again: Postpunk 1978–1984, Simon Reynolds (2005)
    • The Great Rock Discography, Martin C. Strong (2004)
    • Discogs – dados discográficos verificados de The Lexicon of Love e The Lexicon of Love Live (2023)
    • Setlist.fm e críticas de fãs sobre a turnê de 40 anos (Sheffield City Hall, 2022)
    • Arquivo oficial do ABC e entrevistas com Anne Dudley (Sound on Sound, 2016)

    Ouça o episódio do podcast

    Este post foi inspirado e é companheiro do episódio “ABC: O Dia em Que o Pop Britânico Vestiu Laço Preto e Pediu um Martini”.
    🎧 Ouça agora no 80unds e mergulhe na trilha sonora completa com trechos comentados por Heavão e Gerardcore.

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